O Brasil sempre figurou no imaginário popular como o “país do futebol”, ainda que a história moderna do esporte nos obrigue a considerar o outro lado do mundo, numa viagem transoceânica, que tem a Inglaterra como ponto original desse esporte.
O hábito de chutar uma bola, entretanto, vem de um tempo e de uma terra mais distantes ainda. Nos contam os registros que militares chineses já disputavam um jogo que seria o precursor do que hoje chamamos “futebol”, mais de dois mil anos atrás.
A história não erra quando atribui ao Brasil o título de país do futebol. O jogo de bola é uma paixão nacional. Entre outras razões, porque é daqui o casal real – Marta e Pelé – reconhecido pelo mundo inteiro como o rei e a rainha do futebol.
Mas, o caminho trilhado pelos homens para virar referência no mundo da bola é bem distinto da trajetória feminina. No rastro de Pelé, Bellini, Djalma e Nilton Santos, Garrincha, Zagalo, Gerson, Tostão e Rivelino, campeões das copas de 58, 62 e 70, vieram várias gerações de atletas que ajudaram a consolidar a imagem do Brasil como país do futebol.
Em 2014, 50 ex-campeões mundiais de futebol receberam um reconhecimento do Governo Federal e da CBF, pelo feito histórico que tornou o Brasil pentacampeão da modalidade.
Do lado feminino a história é bem diferente. A começar pela dificuldade natural de uma sociedade estruturalmente machista em reconhecer o futebol como um esporte possível de ser praticado por todos. Tanto é que as primeiras referências registradas no Brasil da década de 20, pouco mais de cem anos atrás, tratavam o futebol feminino como algo exótico, a ponto de figurar como uma atração de circo.
Para tornar ainda mais dramática essa história, a prática do futebol pelas mulheres foi proibida no território brasileiro, em 1941. Essa proibição retrógrada, preconceituosa e absurda levou mais de 40 anos até que fosse derrubada e a prática do futebol feminino devidamente regulamentada, em 1983.
Para algumas das pioneiras na modalidade, o momento se assemelha à volta da democracia em nosso país. Hoje, o governo brasileiro dá um novo passo no sentido de reparar um erro histórico e impedir que o papel das pioneiras do futebol seja intencionalmente pagado da nossa história.
Muitas décadas depois, a Lei Geral da Copa 2027, marco legal que estabelece as condições necessárias para a realização da principal competição esportiva feminina do planeta assinado nesta terça-feira, 02/06, pelo presidente Lula, prevê o reconhecimento das jogadoras que participaram do torneio experimental de 1988 e da primeira Copa do Mundo Feminina, em 1991, como forma de reparação histórica às pioneiras do futebol feminino brasileiro.
Muitas daquelas meninas que romperam barreiras e plantaram a semente de uma modalidade esportiva que hoje é reconhecida mundialmente nunca receberam o devido valor por tudo o que fizeram.
Elas cresceram num país que considerava o futebol incompatível com o que chamavam de natureza feminina. Mesmo assim, os campos de várzea, os clubes pequenos e a insistência dessas mulheres mantiveram o futebol feminino vivo.
A medalha de bronze conquistada pela seleção brasileira feminina de futebol no torneio experimental da China, organizado pela FIFA em 1988, tem na memória de quem participou daquela conquista o brilho de ouro para uma geração que nunca poderá ser esquecida.
A sanção da Lei Geral da Copa marca uma nova etapa dos preparativos do Brasil para receber a principal competição esportiva feminina do planeta. Nosso compromisso é garantir que os benefícios da Copa permaneçam no país muito depois do apito final, é garantir o legado social e esportivo que estamos construindo.
Nada mais justo, portanto, do que jogar uma luz definitiva num pedaço esquecido da história do futebol brasileiro e eternizá-lo de uma vez por todas. No momento exato em que o Brasil se prepara a passos largos para realizar a primeira e melhor Copa do mundo da história do futebol feminino, reconhecer o feito de 30 das pioneiras do futebol é um ato mais do que merecido. É um reconhecimento histórico, justo e necessário. Luz que põe fim à sombra do esquecimento.

