Sexta, 29 de Agosto de 2025

Quiolimpíadas Malhadinha: Governo do Tocantins fortalece competição cultural e esportiva em território quilombola

Pelo terceiro ano consecutivo, Sepot apoia a realização das Quiolimpíadas Malhadinha, na região central do estado.

Manoel Júnior/Governo do Tocantins
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Andréa Luiza Collet/Governo do Tocantins

29 agosto, 2025 às 17:33

Os jogadores de futebol entrarão em campo, neste fim de semana, para mais uma disputa acirrada entre equipes de seis comunidades quilombolas. No peito, o orgulho de ser quilombola e uniformes desenhados especialmente para a 10ª edição da Quiolimpíadas Malhadinha, apresentando elementos visuais característicos da cultura quilombola. O evento, que tem início nesta sexta-feira, 29, a partir das 19 horas, conta com o apoio do Governo do Tocantins, por meio das secretarias de Estado dos Povos Originários e Tradicionais (Sepot) e dos Esportes e da Juventude (Seju).

As Quiolimpíadas nasceram como jogos internos da Comunidade Quilombola Malhadinha, localizada na zona rural de Brejinho de Nazaré, e foram conquistando outras comunidades do estado. Nesta edição, que comemora uma década, são esperadas cerca de três mil pessoas, entre competidores e visitantes. Além dos atletas da comunidade realizadora, já confirmaram presença as comunidades vizinhas Curralinho do Pontal, Córrego Fundo e Manoel João. Como visitantes, o evento terá duas comunidades da região do Jalapão - Barra da Aroeira e Ouro Preto.

O professor Esmaylson Pereira de Souza, da comissão organizadora, explica que mais do que uma competição esportiva, o evento tem como proposta promover a inclusão das pessoas, fortalecer os laços entre as comunidades quilombolas e perpetuar conhecimentos e saberes que fazem parte do cotidiano, como o trabalho na roça e na cozinha. Essa característica de união de esforços se reflete na própria estrutura do evento, que não cobra taxa de inscrição, e os participantes recebem todas as refeições e se acomodam num grande acampamento, montado na sombra das árvores, com a garantia do suporte e hospitalidade dos moradores.

Esmaylson explica que a medida em que o evento foi crescendo, o apoio externo tornou-se muito importante para garantir a presença de todas as comunidades interessadas sem perder as características que vêm sendo mantidas desde o início, quando a mestre de cultura Ariadne Nogueira e Edson Gleives apresentaram a proposta de um evento voltado à integração da comunidade.

Para esta edição, o Governo do Tocantins repassou à comissão organizadora equipamentos esportivos, entre eles bola, rede e apito, oito kits de uniformes para as comunidades e material de divulgação, além do suporte logístico e água para os atletas. 

Da lida diária à competição

O professor Esmaylson explica que as provas que trazem atividades características do cotidiano dos territórios são o coração do evento. “Essas provas servem para valorizar nossa tradição e incentivar os mais jovens a reconhecer a importância do modo de vida que estão presentes ainda hoje e manter a cultura viva”, informa. Destacam-se as provas do Feixe de Lenha e de Pilar o Arroz, que valorizam a experiência das pessoas mais velhas, e a da baladeira – também conhecida como estilingue. 

No Feixe de Lenha, cada representante das comunidades recebe um feixe de lenha, uma corda e um pedaço de pano, conhecido como rudia. Dentro do tempo determinado, o competidor deve arrumar a carga e transportar por alguns metros, na cabeça, sem o uso das mãos. A rudia, um pano enrolado sobre a cabeça, serve como apoio e proteção. E saber como colocar e usar é o grande segredo do desafio. “A brincadeira representa o ato de ir buscar lenha e transportar da roça até a casa, como se fazia antigamente”, explica o professor.

Na prova de Pilar o Arroz, os competidores precisam ter muito mais do que agilidade. Devem saber a técnica de pilar o arroz e também as características da matéria-prima. O professor explica que entender a força aplicada é essencial para não quebrar os grãos e soprar para retirar a casca e as palhinhas dos grãos que não vingaram. O arroz utilizado na prova é produzido pelo vô Cassimiro, que do alto dos seus 80 anos não deixa de plantar sua roça de toco (apesar de hoje precisar de ajuda para preparar o terreno).

Já o Circuito 2.0 Power traz seis modalidades, com provas inspiradas na lida da roça de toco, uso do fogo e desafios que exigem força, equilíbrio e conhecimento. O professor explica a dinâmica da prova tora de pau, que faz alusão ao tronco durador, que era usado na época em que não havia energia elétrica para manter o fogo aceso durante a noite, garantindo que no dia seguinte o fogo pudesse ser novamente reavivado para o uso na cozinha e outras necessidades. “O troco durador era mais grosso do que os demais para aguentar aceso até o outro dia”, conta Esmaylson.

Esportes clássicos

No sábado, 30, durante todo o dia, serão realizadas as competições de esportes clássicos, como futebol, vôlei e atletismo - corrida de 100 metros, revezamento 4x4 e salto em distância. A disputa de embaixadinhas também faz parte da programação.

Tradição e cultura

Nas duas noites do evento, uma programação cultural rica e diversificada deve animar o público. Cada comunidade participa espontaneamente da programação, com apresentações típicas, entre elas a Folia do Divino e a sussa.

No sábado, 30, parte das atividades valem pontos na competição geral, entre elas os concursos de forró raiz, de poesias e o desfile de beleza negra.

Carta aberta

Na manhã de domingo, 31, serão premiadas as comunidades vencedoras e um momento mais reflexivo faz parte da programação. Os participantes se reúnem no formato roda de conversa para compartilhar as angústias e os desafios dos seus territórios. No fim, uma carta aberta, escrita à mão, é assinada pelos presentes e segue como documento para instâncias afins, caso seja pontuada alguma demanda que careça de resposta do poder público, como infraestrutura e saneamento, por exemplo. “Desta forma, buscamos apoiar e resolver os problemas das nossas comunidades”, enfatiza o professor.